Existe um jeito certo de apresentar um livro para uma criança?

Quando nós, leitores autônomos, falamos de literatura com nossos amigos ou colegas, costumamos compartilhar as impressões que tivemos com cada livro. Eu, pelo menos, não sigo uma regra e comento sempre uma sequência de aspectos, como o autor, editora e contexto. Faço, basicamente, um intercâmbio de experiências, destacando o que mais me marcou.
Fiquei pensando se esse comportamento se repetiria ao compartilhar um título com uma criança que ainda está engatinhando no mundo da leitura.
Com essa dúvida na cabeça, fui conversar com a professora Denise Guilherme, consultora em projetos de leitura e criadora do site A Taba. Confira o que ela me contou:
Qual é a melhor maneira de apresentar um livro para uma criança?

Como diz a contadora de histórias Edi Fonseca, apresentar um livro é como apresentar amigos: nunca apresentamos todas as pessoas do mesmo jeito, porque sempre fazemos um link entre cada uma, nós mesmos e nosso interlocutor. Logo, não existe um jeito padrão nem jeito melhor de apresentar todos os livros. Por exemplo, se a obra é de um autor já conhecido pela criança, esse é um dos aspectos que pode ser destacado, assim como é possível ressaltar um tema que é da preferência do adulto que sugere. Claro que, no segundo caso, ele deve ser compatível com os pequenos.

Pensando em atividades com literatura em sala de aula, quais critérios um professor que trabalha com crianças pode seguir para escolher de que maneira fará uma leitura?

Assim como é diversa a maneira de introduzir um novo livro, também é a forma de lê-lo. Geralmente, propomos que a criança leia sozinha o que ela tem condições de ler sozinha e que o professor leia em voz alta o que ela não tem condições. Mas esse não é o único critério. Alguns livros têm um trabalho específico com a sonoridade e, quando lidos em voz alta, evidenciam sua melodia e cadência. Também há aqueles que trabalham com repetições. Estes, se lidos pelo professor para toda a turma, favorecem a participação dos alunos na leitura, na medida em que eles conseguem detectar as partes recorrentes no texto. Além disso, é um bom incentivo para fazer com que crianças ainda não alfabetizadas comecem a ler. Já publicações com linguagem mais complexa ou ilustrações difíceis de serem analisadas são boas pedidas para leituras compartilhadas. Uma possibilidade é que todos os alunos tenham o livro em mãos para a leitura individual, mas façam uma interpretação de texto em conjunto.

Se o professor quer trabalhar a leitura oral, há gêneros mais indicados?

Sim. O discurso e o poema, por exemplo, são gêneros que têm como fim serem lidos em público. Além disso, eles são bons se o objetivo é focar na entonação e no ritmo da leitura. Outra possibilidade é o uso da teatralização no caso específico do texto dramático, que já nasce para ser encenado. É importante que os uso de cada texto seja real e respeite sua natureza.

Sabemos que também é muito importante que os estudantes desenvolvam o prazer da leitura. Como o professor pode trabalhar isso?

Ler nem sempre é prazeroso. Muitas vezes lemos textos chatos para estudar ou muito densos e longos. É importante não ignorarmos isso. Mas, quando pensamos nos momentos de prazer, é preciso que os alunos tenham liberdade de escolha. Claro que o professor, na posição de um leitor experiente, sempre pode indicar um título. Porém, é importante prestar atenção para não censurar o aluno de acordo com a nossa visão do que ele é capaz de ler. Desbravar uma leitura mais complicada pode ser um desafio bacana para ele também.

Gestão de Bibliotecas Universitárias

O bibliotecário gestor dentro de uma biblioteca universitária tem que saber enfatizar o trabalho em equipe e capacitar seus colaboradores


O conceito de gestão de pessoas é uma associação de habilidades, métodos, políticas, técnicas e práticas definidas, com o objetivo de administrar os comportamentos internos e potencializar o capital humano nas organizações.
A gestão de pessoas ocorre através da participação, capacitação, envolvimento e desenvolvimento de colaboração de uma organização, e a área tem a função de humanizar as empresas. Em uma organização, a gestão de pessoas deve ser feita pelos gestores, porque é uma área que requer capacidade de liderança e ele possui uma grande responsabilidade na formação dos seus colaboradores, e tem o objetivo de desenvolver e colaborar para o crescimento da instituição e do próprio colaborador.
Se as pessoas dentro das organizações tiverem oportunidade de progresso e forem motivadas, elas vão poder dar o melhor delas, originando resultados positivos para a organização em questão. O gestor é fundamental para o planejamento, organização, direção e controle das organizações, ele é o equilíbrio entre a ação e a reação, com ações simples é possível transformar, motivar e engajar os colaboradores em um único objetivo, que com certeza os levará a fazer o trabalho de forma prazerosa e zelosa, pois um colaborador motivado é o que garante a qualidade nas ações desenvolvidas.
Ter uma boa equipe também é fundamental para o desenvolvimento da organização, pois cada vez mais o mercado de trabalho exige dos profissionais a capacidade para trabalhar em equipe, afinal bons resultados dificilmente nascem de ações individuais. Ou seja, saber trabalhar em equipe influencia diretamente na posição a que se pode chegar profissionalmente.
O papel do bibliotecário gestor que visa obter uma liderança de sucesso precisa conhecer de perto as necessidades, o grau de anseio e interesses de cada colaborador, partindo deste pressuposto pretende-se verificar qual o papel do bibliotecário gestor para obtenção de êxito neste processo.
O bibliotecário gestor dentro de uma biblioteca universitária tem que saber enfatizar o trabalho em equipe e capacitar seus colaboradores para que seu usuário possa ver um diferencial prestado nesta biblioteca dispondo de inovação e qualidade de serviços. Por isso os bibliotecários gestores junto com seus colaboradores devem estar unidos por uma missão comum e envolvidos numa tarefa maior do que suas atribuições individuais. Cabe ao bibliotecário gestor assumir uma postura administrativa séria e competente, para o funcionamento principalmente no que se refere à gestão de pessoas. Para uma biblioteca universitária ser bem ativa e bem sucedida precisa-se de profissionais capacitados para que a equipe possa está sempre informada e dar melhor atendimento aos usuários. Ou seja, o bibliotecário gestor precisa capacitar seus colaboradores por meio de treinamentos, cursos, palestras, etc.
O bibliotecário com sua capacidade adquirida em seus estudos e aperfeiçoamentos estarão aptos a desenvolver trabalhos não somente direcionados para a parte técnica, ou seja, ele não realizará apenas atividades de catalogação, classificação, indexação, dentre outras, mas também desenvolverá tarefas gerenciais, como por exemplo, a gestão de pessoas. É importante mencionar que vivemos na sociedade da informação e que as informações estão sempre surgindo rapidamente e para isso o bibliotecário gestor deve estar sempre capacitado, ter habilidades e um bom preparo para gerenciar bibliotecas universitárias.
Diante das constantes e rápidas transformações tecnológicas que estão ocorrendo na sociedade, causando grande impacto na vida das organizações, torna-se necessário a existência de gestores que tenham capacidade de conduzir pessoas nesse ambiente de complexidade e transformação. Para que isso se concretize, é necessário desenvolver nas organizações uma cultura de valorização da liderança como recurso, com o objetivo de possibilitar a transformação organizacional.
As bibliotecas universitárias também estão passando por profundas mudanças em sua maneira de serem gerenciada, pois é necessário acompanhar as novas formas de gestão e adaptá-las para que elas possam desempenhar, da melhor maneira possível, seu papel de atender as necessidades informacionais de seus usuários. É fundamental que os bibliotecários que exerçam papel de gestores observem as mudanças que vêm ocorrendo na sociedade contemporânea, a um ritmo cada vez mais acelerado, o que os obriga a refletirem sobre as mudanças que afetam o gerenciamento das bibliotecas universitárias em que atuam.
Pode-se então perceber um novo fazer bibliotecário: administrar e capacitar pessoas ou procurar pessoas capacitadas. Verifica-se que o passar dos anos se especializar em administração de pessoas será o grande responsável pelo sucesso profissional do bibliotecário, pois este profissional deverá então voltar seu olhar para o lado humanitário, para que este lado fique no mesmo nível de qualidade do tecnicista, que é a marca registrada do bibliotecário.
O desafio do bibliotecário gestor consiste em saber lidar com esses fatores desempenhar bem tanto o trabalho tecnicista como administrativo, fazendo com que eles trabalhem juntos, se adaptando um ao outro. O bibliotecário deve acompanhar as tendências de administração e gestão de pessoas, saber utilizar as ferramentas motivacionais junto aos seus colaboradores, a fim de que possa tomar decisões mais adequadas, pois a teoria constitui-se em um apoio para o processo na prática.
Portanto o bibliotecário gestor precisa ter conhecimentos atualizados e procurar informações para sua capacitação e também para poder capacitar seus colaboradores de acordo com as necessidades que surgem, e até mesmo para se prepararem para as exigências futuras.

Autista faz livro inspirado em amiga com Down e supera preconceito


“Quero divulgar o respeito ao próximo e às pessoas. Deus criou a gente para se respeitar, se amar e respeitar todos com suas diferenças. Então, quero que, quando as pessoas lerem o meu livro, acabem percebendo que todos têm suas insatisfações, mas podem ser felizes". A afirmação é do jovem Lucas Zorzetto, de 27 anos, portador de síndrome de Asperger, forma leve de autismo. Lucas conseguiu superar suas dificuldades de se socializar e escreveu um livro inspirado justamente na amizade que conquistou com Sabrina Miranda, uma portadora de síndrome de Down, de 37 anos. O livro vai ser lançado no dia 6 de maio no Centro Cultural de Tatuí (SP). Para ele, ter escrito a obra e ter conquistado a amizade da Sabrina na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) foram momentos especiais.

“Quando cheguei à Apae a Sabrina foi receptiva e isso facilitou bastante fazer amizade com ela. Ela recebe todo mundo que chega muito bem e foi uma da primeiras pessoas que virou minha amiga. A amizade dela é bem importante para mim. E o livro foi inspirado nela e surgiu por conta da nossa amizade. Então, a nossa amizade e o livro são especiais”, afirma.

Em entrevista ao G1, o jovem contou que recebeu o diagnóstico da síndrome de Asperger em 2011 depois de anos que a família e os professores perceberam a falta de socialização na escola e tentavam achar a causa. No ano seguinte, em 2012, ele sofreu depressão após a morte de um tio. Foi então que os pais decidiram levá-lo para a Apae. Porém, o jovem afirma que tinha receio e preconceito de ir para a Associação.

“Eu tinha preconceito e receio de que o lugar era só para problemas mais elevados. Não sabia que há deficiência intelectual, que é o meu caso, e a deficiência mental, quando a pessoa precisa de mais cuidados. Muitos fantasiam ou tem um conceito antigo sobre essas instituições, mas os alunos têm uma capacidade brilhante. Eles superam seus limites e nos surpreendem”, afirma Lucas.

E foi na Apae que o jovem conquistou a amizade da Sabrina . “Fiz amizade com ela logo no primeiro dia. Nós participávamos juntos das aulas de artesanato que, por sinal, ela é bem talentosa”, conta.

Escrevendo o livro

Segundo Lucas, em uma das aulas Sabrina enviou uma carta para ele e o jovem quis retribuí-la. “Ela mandou a carta pra mim e quis retribuir. No dia que ia mandar a carta, resolvi enviar um texto que tinha feito sobre uma menina que tinha uma pedra no sapato e que estava nervosa com isso. Eu fui escrevendo a história, mas, quando terminei, percebi que tinha umas 50 folhas. Então, eu levei o material ao professor Pedro Couto, que organizou tudo. Depois ainda entreguei a redação para Sabrina”, conta.

Os professores o ajudaram a organizar o texto e fizeram a correção do livro, que ganhou o título “Uma viagem ao Mundo de Clara”. A personagem principal, segundo Lucas, é inspirada em Sabrina. 

“O livro é uma história fictícia sobre uma menina com síndrome de Down chamada Clara e insatisfeita por sua condição. Mas ela encontra em sua vida outros personagens com outros tipos de descontentamentos e que mostram que todos têm problemas e defeitos. Escolhi o nome Clara justamente por remeter à luz”, explica.

Além de Sabrina, outros personagens foram inspirados em psicólogos, professores e também na faxineira da Apae. “Sueli é mãe da personagem principal e tem o mesmo nome da faxineira da escola. Escolhi fazer uma personagem inspirada nela porque ela tem muita experiência e transmite uma mensagem muito positiva para todos os alunos da Apae”, diz Lucas.

Segundo o jovem, seu principal objetivo é que o livro consiga quebrar barreiras. “Espero que o livro ‘abra cabeças’ e quebre barreiras. Espero que as pessoas mudem a sua visão sobre pessoas com deficiência, pois elas são muito capazes e merecem ser respeitas e amadas. Afinal, nós todos somos filhos de Deus”, reflete.

Para a amiga Sabrina Miranda, ser a inspiração do livro e ver a obra sendo publicada são motivos de alegria. "Estou muito feliz pelo Lucas. Já li o livro e gostei bastante. Vou participar do lançamento e tenho muito orgulho dele. O livro mostra que todo mundo é capaz, inclusive quem tem deficiência, síndrome de Down ou síndrome de Asperger", afirma.

O livro será lançado no dia 6 de maio no Centro Cultural de Tatuí, após três anos de procura por uma editora que aceitasse a ideia e a publicasse. “Preciso vender 300 livros para custear a edição, porque não tinha dinheiro para fazer a publicação. Minha mãe Maria Luiza Soares e meu pai Adilson Zorzetto me apoiaram muito nessa jornada. Sou muito grato também às minhas irmãs mais velhas Roberta e Flávia”, completa Zorzetto.

Lucas atualmente não faz mais acompanhamento na Apae, mas ainda recebe tratamento psicológico. Ele quer continuar escrevendo e diz que já tem até outro livro em produção. O jovem trabalha como auxiliar de produção em uma indústria eletro metalúrgica da cidade, onde Sabrina também trabalha, mas em outro setor de produção. A amizade dos dois ainda é mantida: "Ela é uma pessoa muito querida para mim", afirma o escritor.

A democracia pode ser assim – um livro e um lado

A coleção Livros para o Amanhã traz uma série de quatro livros: A democracia pode ser assim, A ditadura é assim, O que são classes sociais? e As mulheres e os homens. Essa série é dirigida a jovens leitores. 
“Livros para o Amanhã” foi publicada pela primeira vez entre os anos de 1977 e 1978, pela editora La Gaya Ciencia, de Barcelona, na Espanha. Aqui no Brasil, a 

série foi publicada no final do ano passado, pela Boitempo Editorial (selo Boitatá). Quando esses livros saíram na Espanha, fazia menos de três anos que o ditador Francisco Franco havia morrido.
Franco governou a Espanha por quase quarenta anos, de 1936 até sua morte, em 1975, quando o país começou a viver um período de transição, com as primeiras mudanças democráticas. Nesse tempo o Brasil era uma ditadura, que durou mais uns anos, ainda, e esses livros, certamente, seriam censurados por aqui.
O livro A democracia pode ser assim com os textos de Equipo Plantel e as ilustrações de Marta Pina explica como funciona esse sistema político. Na democracia há liberdade, “todos podem brincar de tudo”, também podem pensar o que quiser, dizer o que quiser, encontrar e se reunir com quem quiser.
Mas existem regras e leis que devem ser obedecidas. O livro também fala de eleições e de partidos políticos, existem os conservadores e os progressistas. Cada grupo tem o seu programa, que é apresentado a toda população para ver quem serão os escolhidos para governar. O eleitor escolhe e a maioria vence.
Essas são só algumas partes, no final do livro tem um texto do filósofo Leandro Konder, contando um pouco da história da democracia, tem também outro texto, que fala um pouco do que mudou de 1977, quando o livro saiu pela primeira vez, para os dias de hoje, e ainda tem mais, cinco questões sobre o tema para refletir e debater.

Fonte: http://bit.ly/24m2qwq

A infância segundo Drummond

Coletânea reúne textos do grande poeta da Literatura Brasileira sobre os tempos de criança

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Um banho quente de bacia, as aulas de português com o professor Carlos Góis, as brincadeiras na rua interrompidas pelo grito que vem da janela – “é tarde” -, os furtos de jabuticaba do pé alheio, enfim, os doces prazeres e aflições da infância vivida em Itabira, em Minas Gerais.
A coletânea Vou crescer assim mesmo traz alguns dos mais emblemáticos poemas de Carlos Drummond de Andrade sobre seus tempos de criança passados entre fazendas, mato, animais, casas e a vida vagarosa e bucólica do interior mineiro.
A obra integra a coleção Lembrete, que se propõe a despertar o gosto pela leitura de crianças com idade entre 9 e 13 anos com o melhor da Literatura Brasileira. As ilustrações são da curitibana Ale Kalko e dão um colorido e ritmo especial para as rimas, métricas e metáforas do poeta.
O livro é uma oportunidade para apresentar aos pequenos leitores a obra drummondiana e todo seu lirismo. Para os adultos, um convite a reviver as memórias da infância, época em que recebemos as boas-vindas do mundo, vivemos descobertas e aventuras que influenciam o resto das nossas vidas. Nas palavras do próprio Drummond: “E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé”
Vou crescer assim mesmo: poemas sobre a infância
Autor: Carlos Drummond de Andrade
Ilustração: Ale Kalko
Companhia das Letrinhas, 2016


Fonte: http://bit.ly/1Vxi7vO

Publicar o primeiro livro é um desafio para um escritor estreante, e em tempos de recessão econômica pode se tornar uma missão impossível. Esse teria sido o destino da escritora Martha Batalha, não fosse por um detalhe: "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão", sua primeira obra, chamou a atenção de diversas editoras no exterior e teve os direitos comprados para o cinema. Tudo isso antes mesmo de ser publicado no Brasil, onde foi recusado pelos grandes grupos editoriais até ser adquirido pela pequena Companhia Editora Nacional e, mais tarde, passar à Companhia das Letras, que acaba de enviá-lo às livrarias.

"O livro demorou muito tempo para ser aceito no mercado brasileiro. E acho que a culpa não foi do mercado. No ano passado, como esse ano também, o mercado editorial estava em uma super-crise. A maior parte das editoras não estava aceitando novos autores, estava todo mundo tentando se segurar", conta ela, explicando que o corte de gastos do governo teve um grande impacto nas editoras, que têm no poder público um de seus maiores compradores.

Martha, 42, fala com conhecimento de causa: jornalista, ela abandonou as redações em 2003 para fundar a editora Desiderata, responsável por publicar a antologia do jornal satírico "Pasquim" e os livros de seus antigos colaboradores, como Millôr Fernandes, Jaguar e Ivan Lessa. No final de 2007, a editora foi vendida para o grupo Ediouro e Martha mudou-se para os Estados Unidos para cursar um mestrado em editoração e recomeçar a vida ao lado do atual marido, porto-riquenho.

Seu sucesso contou com a ajuda de outra profissional experiente, a agente Luciana Villas-Boas, da Villas-Boas & Moss, nome de peso na representação de autores brasileiros. Em meio à rejeição das editoras nacionais, foi ela quem começou a oferecer o livro para casas estrangeiras e fechou o primeiro negócio com a alemã Sührkamp, que fez uma proposta acima do valor de mercado para evitar que o livro fosse a leilão (prática conhecida no mercado editorial como "pre-empt offer"). Em outubro de 2015, veio a Feira do Livro de Frankfurt, e o interesse internacional aumentou: até agora, "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" já foi vendido para dez países, incluindo Alemanha, Itália, Portugal, França e Holanda.

Cinema

Antes de Frankfurt, Luciana também já havia conseguido um contrato de adaptação para o cinema. Ela ligou para o produtor Rodrigo Teixeira, um dos expoentes do cinema nacional, conhecido por seu grande interesse em adaptar livros para as telas, e disse que tinha uma obra especial para ele avaliar. Rodrigo leu, se interessou e a adaptação já está em desenvolvimento, com direção de Karim Aïnouz ("Praia do Futuro") e filmagens previstas para o início de 2017.

"O livro me interessou porque é muito próximo a situações que eu conheço", conta o produtor. Com a trama estendendo-se dos anos 1940 ao início dos anos 1960, "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" narra as histórias de duas irmãs de classe média no Rio de Janeiro, Eurídice e Guida, em meio às condições adversas que a sociedade reservava às mulheres na época.

"Eu vi mulheres muito parecidas com elas. Tias, avós, pessoas próximas à minha mãe, que tiveram realidades similares ao que essas mulheres viveram", completa Rodrigo. Sobre a escolha de Karim, ele diz que, assim como ele próprio, o cineasta viveu em uma família de mulheres e se "sensibiliza mais com esse tema da condição da mulher". "Foi uma coincidência até trágica, porque a mãe dele vinha de uma fase muito doente, ele leu esse livro, se apaixonou por ele, e a mãe dele morreu logo depois", conta.

Reviravoltas

Em meio às reviravoltas, o livro acabou também mudando de mãos no Brasil. "A editora que estava trabalhando comigo [na Companhia Editora Nacional] foi demitida, também por causa da crise. Aí eu conversei com a Luciana e disse que não tinha segurança para continuar lá", conta Martha.

A esta altura, a carreira internacional do livro já havia chamado a atenção da Companhia das Letras. "Eu me interessei ouvindo o resumo entusiasmado da Luciana Villas-Boas, e especialmente pela temática feminista", conta Sofia Mariutti, editora do livro na Companhia das Letras. "Acho que o livro chama a atenção por ter uma estrutura tão sólida, e também por trazer algumas curiosidades e reconstruir a história do Brasil do fim do século 19 e do começo do 20", acredita.

Para Martha, este também foi um dos motivos que fez com que tantas editoras internacionais se interessassem por seu trabalho. "Quando eu procurei a Luciana para me representar, disse que queria muito ser lida no Brasil. E a maior das ironias foi que eu fiz uma história que é absolutamente local, e que está fascinando os editores estrangeiros. Acho que justamente porque eles têm muita curiosidade de saber como é o local no Brasil, como é o dia a dia aqui", acredita a escritora. "Mas em momento nenhum escrevi essa história pensando no público estrangeiro".

Feminismo

Além do retrato de um Rio de Janeiro de outra época, uma das características mais marcantes do livro de Martha é um sutil ponto de vista feminista, que desde as primeiras páginas aponta com ironia e humor como a mulher era (e continua sendo) submetida a condições absurdas, independentemente da situação econômica.

"Eu sou uma pessoa muito indignada com todas as injustiças --do Brasil, do dia a dia, de classe social, de tudo. Quando fui escrever, entendi que tinha que escrever sobre as injustiças que eu mais conhecia, que é essa injustiça que a gente vê acontecer o tempo todo e às vezes nem percebe, essa questão das mulheres. Eu sou uma mulher de classe média, de uma família tradicional do Rio de Janeiro, da Tijuca. Essa é a minha perspectiva, acho que tenho que escrever sobre essas coisas.", explica a autora.

A editora do livro, Sofia Mariutti, também ressalta esta característica da obra. "O livro bateu na porta no momento perfeito, com as narrativas feministas ganhando tanta força no Brasil", diz. "Acho que ainda falta olhar para a nossa história e recriá-la com o olhar das mulheres de hoje. A Martha foi atrás de pesquisar e recriar as histórias das nossas avós. Não eram tantas que escreviam naquela época e que podiam contar sua versão das coisas, então é quase um dever das mulheres de hoje recontar essas histórias".

Segundo Martha, a ideia para o livro, além de inspirada por histórias de sua família, veio de uma hipótese: "Fiquei imaginando o que aconteceria com uma mulher brilhante se ela nascesse nesse tempo e nesse lugar. Na verdade, é algo que aconteceu muito, de você ter mulheres perfeitamente capazes e com energia para produzir e que não puderam se realizar naquela época". É o caso de Eurídice, mulher inteligentíssima confinada em um casamento que não é mau, mas também não lhe permite realizar suas aspirações --sejam elas na cozinha, na costura ou na literatura. 

Essa hipótese levantada por Martha liga "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" a uma linhagem de escritoras que trataram da mesma questão no passado, de Virginia Woolf e Clarice Lispector a, mais recentemente, a italiana Elena Ferrante. Mas essas são apenas algumas das influências de Martha. "O que Virginia Woolf fala sobre as mulheres na literatura [no livro 'Um Teto Todo Seu'] é um clássico. Mas a Elena Ferrante eu li depois que meu livro estava pronto e fiquei impressionada com como as histórias se parecem. Mas como influência, em termos de estilo, acho que tem muito do Gabriel García Marquez, essa coisa de ter muitas histórias para contar. E tem outros autores que me influenciaram muito nos últimos anos, como o Jonathan Franzen --pelo pragmatismo dele de escrever--, a Alice Munro, a Jhumpa Lahiri... A trajetória das duas irmãs no livro tem muito de 'Razão e Sensibilidade', da Jane Austen".

O livro de Martha chega em um momento em que o mercado editorial parece se abrir para tirar a literatura feita por e sobre mulheres do nicho em que a havia colocado, vendendo apenas os autores homens como "universais". Exemplo disso são os dois prêmios Nobel concedidos a mulheres nos últimos três anos --Alice Munro e Svetlana Alexievich. No Brasil, A Flip, principal evento literário do país, terá novamente uma mulher homenageada depois de 11 anos --a poeta Ana Cristina César.

"É uma injustiça danada. Philip Roth é universal, Paul Auster é universal, mas Elena Ferrante escreve para mulher", aponta Martha. "Se você for ver, o número de mulheres que ganharam o prêmio Nobel é mínimo. Acho que o mercado é muito masculino nesse sentido. Mas uma coisa é certa: a maioria dos leitores é mulher, no Brasil e no mundo todo. Acredito que o tempo vai colocar todo mundo no lugar certo. Acho que está mudando".

Sofia Mariutti concorda. "Esse movimento não é organizado, mas é inevitável. As editoras se atentam aos temas que estão movimentando as pessoas, então não dá mais para fugir do feminismo. E o nosso papel nessa hora como mulheres é usar o nosso crivo para filtrar o que tem de bom. Eu tenho lido quase só livros de mulheres, mas isso não quer dizer que só por ser mulher ou ter mulher como protagonista vai ser publicada, precisa ter excelência", opina.

Rodrigo Teixeira também acredita que há espaço para histórias sobre mulheres no cinema, coisa que a indústria americana já explora há algum tempo, com filmes como "As Horas", "Tomates Verdes Fritos", "Thelma & Louise", "Carol" etc. "Tanto tem espaço que esses filmes todos tiveram alguma representatividade no Brasil. Acho que existe uma preguiça muito grande de se apostar em novos gêneros no Brasil, falta investir em outros caminhos, e esse é um caminho que eu acredito. No cinema americano foi um super-sucesso. É só ter coragem de pegar essa história para acontecer", conclui.

Enquanto a adaptação cinematográfica de "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" não sai, Martha já está finalizando um segundo livro, que também deve ter uma pitada de feminismo. "São cem anos de uma família que mora em Ipanema, e na verdade é uma metáfora para a classe média brasileira. O livro começa com a construção de um castelo que de fato foi construído em Ipanema em 1904, e o que acontecia nesse castelo", conta. "E também tem uma empregada que tem uma relação interessante com a protagonista. Porque, se você vai escrever literatura e quer que o público brasileiro se identifique, você tem que falar sobre a questão das empregadas domésticas, sobre esse tipo de coisa".


Um minuto de silêncio, pela morte dos e-books


Quando falamos em crescimento ou queda do livro digital, estamos falando em crescimento ou queda dos índices de leitura. Portanto, não é um dado que possamos torcer contra.

Camila Cabete

Há alguns dias tive acesso a alguns textos a respeito do quão mal vinham as vendas de livros digitais e me vi na obrigação de escrever esta coluna para esclarecer algumas coisas. Então, o título desta coluna é uma mentira, e eu escrevi somente para chamar a atenção dos menos simpáticos ao tema. Estou dando a oportunidade de pararem de ler aqui, logo no início. Agora, mesmo não sendo simpático ao digital, convido que leia e pense a respeito.

Se você resolveu continuar, vamos ao que interessa...

O mercado do livro é um mercado relativamente unido, pois falamos de um mercado onde não gira tanto dinheiro, meio intelectual e de certa forma todo mundo se entende.

No entanto, fiquei horrorizada ao perceber a polarização que um artigo gerou no começo dessa semana. A matéria, publicada pela Folha, falava sobre a estagnação ou até queda no mercado de e-books nos EUA. Pude ver, incrédula, que profissionais do livro comemoraram a decadência (relativa) de um formato de leitura. E olha que o texto se referia a uma só loja e a uma só análise, mas o que senti nas redes sociais foi mais um Fla x Flu no qual, de um dos lados do campo, estava o formato digital. Será que fui tendenciosa na minha análise? Será que entendi errado?

Isso me assusta... É como uma empresa que torce contra seu próprio produto. Tipo, torcendo para não vender, torcendo para o seu conteúdo dar errado, torcendo para um (dos inúmeros formatos) "encalharem". Esquecendo completamente que livro é conteúdo, e que o formato digital é uma forma de chegar em todos os lugares (estamos falando de Brasil: logística muitas vezes ineficiente, dimensões continentais e índices vergonhosos de leitura, certo?).

E mais... Quando falamos em crescimento ou queda do livro digital, estamos falando em crescimento ou queda dos índices de leitura. Portanto, não é um dado que possamos torcer contra, concordam?

Então a onda é polarizar? Desculpe o termo, mas me nego a embarcar nesta onda burra. Para mim, isso é burrice, descaso e conservadorismo. E outra: estamos falando de gente que lê e que deveria fazer uma análise mais crítica do texto, para saber do que realmente ele trata. A impressão que tenho é que algumas pessoas leram apenas a manchete... Só pode. Me nego a acreditar que, lendo criticamente o texto, continuassem tendo a mesma opinião.

Chega de me queixar. Vamos falar em termos práticos. Na minha visão, na visão de quem trabalha na Kobo, o digital cresceu ano passado no Brasil menos do que gostaríamos. Por outro lado, o livro de papel caiu, e caiu bastante. O que vejo com pesar imenso, mesmo eu sendo profissional do livro digital.

Não posso dar dados concretos porque são dados coletados dos meus clientes, que são as principais editoras do Brasil e do mundo. Mas como se trata de uma coluna, só posso contar que acreditem em mim. Estou falando também de minha percepção de mercado.

Estes dados poderiam estar ainda melhores se parássemos de separar o conteúdo do formato e fôssemos mais racionais ao falar disso.

O autor (o bom autor) quer ser lido e os formatos digitais são algo inimaginavelmente gratificantes para ele (o bom autor) que quer ser lido em qualquer lugar, mesmo nas cidades onde não existem livrarias. Captou? Seu livro, a qualquer hora, em qualquer lugar do mundo? Será que isto está claro para os profissionais do livro? Não acho que esteja e volto para reativar a coluna e reacender a discussão.

O lado bom, foi que vi novamente a utilidade do excelente canal de comunicação que tenho aqui. Me vi novamente lutando pelo meu ideal, que não é somente ligado a um formato, mas à democratização da leitura. A coluna renasce das cinzas, pois por um breve momento achei que tinha dado a cabo o meu dever... só que não.

Muito ainda temos a andar, muito ainda a desmistificar o formato digital; e muito a despolarizar. Precisamos entender melhor o mercado e distribuir bem as ações, evitando assim, ficar nas mãos de uma livraria somente, precisamos pensar em marketing para o formato digital, precisamos de criatividade.

Editor, se o formato digital não está indo bem, você é parte disso. Não comemoraria um fracasso. Mas a boa notícia é que pelo menos, estamos segurando a onda das perdas do impresso. E também não vou comemorar isso. Não há o que se comemorar nestes dias, não é?

PS: agora vc vê... até e-books têm haters =/

A educação do olhar feita pelos livros infantis

Os bons livros não são aqueles escritos para uma criança idealizada ou idílica, mas produzidos para surpreender


Por Denise Guilherme Viotto 
“A função da arte 1
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
– Me ajuda a olhar! “
(O livro dos abraços, de Eduardo Galeano. LPM.)
Atualmente, os leitores que se aventurarem pelas prateleiras das grandes bibliotecas e livrarias certamente serão surpreendidos pela quantidade de obras voltadas para o chamado público infantil e juvenil. E, se souberem procurar para além da enxurrada de livros escritos apenas para atender a demanda de mercado e os subprodutos dos desenhos animados, pode ser que encontrem alguns tesouros: títulos que apostam na inteligência do leitor, que provocam, instigam e convidam a muitas leituras. Essas obras exigem um olhar atento às múltiplas relações que se estabelecem entre texto e imagem, capa e conteúdo, formato e textura das páginas, técnicas de ilustração e tipologia. Nelas, tudo está a serviço da construção de sentido – e só vai aproveitar a experiência da leitura, em sua plenitude, um leitor capaz de dialogar com todas essas linguagens.
Mas, quem é o leitor para o qual esses livros estão sendo escritos? Que conhecimentos deve possuir para acessar essas obras?
Creio que os leitores desses livros são todos aqueles que estão dispostos a olhar o mundo com os olhos de quem pergunta. Por isso, os bons livros de literatura infantil são aqueles que não foram escritos para uma criança idealizada, idílica. Mas, que foram produzidos para surpreender, divertir e provocar todas as infâncias possíveis. Aquelas que estão sendo experimentadas pelos pequenos dos tempos de hoje e também aquelas que habitam os leitores adultos.
É com esse estado de espanto e descoberta diante do mundo que essas obras desejam conversar. E para isso é preciso aprender a ver. Educar o olhar para enxergar os diferentes códigos por meio dos quais um bom livro é produzido. E isso só é possível por meio do acesso a títulos de qualidade, ancorados por uma mediação que traga luz aos aspectos que só são observados pelos leitores mais experientes.
O livro sozinho, sem a presença do leitor, é apenas um objeto como outro qualquer. Para cumprir sua função, é preciso que se estabeleça uma interação com aquele que o lê, o qual lhe atribuirá significados a partir da experiência da leitura. E quanto maior a capacidade de construir relações com o texto, melhor e mais completa se torna a prática da leitura. Por isso, talvez hoje, mais do que nunca, esses livros repletos de códigos exijam um leitor que dialogue não apenas com o texto, com sua própria biografia ou experiência leitora, mas, principalmente, com outros leitores.
Gosto da imagem criada por Eduardo Galeano, que abre esse texto. Para olhar, é preciso alguém que conduza essa descoberta, essa travessia: um mediador. Um mediador é, antes de tudo, um leitor que, se já não é experiente no diálogo com essas múltiplas linguagens, reconhece seu lugar de aprendiz e possui vontade de conhecer junto, descobrindo e se encantando também a cada página. E, talvez, sua grande qualidade seja a disponibilidade para estar ao lado desse leitor e caminhar junto com ele em direção ao desconhecido, aos outros mundos, outros olhares e vivências trazidas pelo livro, abrindo também a possibilidade de diálogo com outros leitores.
Mais do que aquele que sabe tudo sobre leitura, um bom mediador – educador, bibliotecário, pai ou mãe – é alguém que promove a escuta. Seja porque está aberto a compreender as diferentes leituras que estão sendo construídas pelos leitores que tem diante de si, seja porque permite que todos sintam-se à vontade para mostrar suas descobertas, suas dúvidas e as diferentes aproximações que estão fazendo com o texto, com as imagens, com o livro como um todo. Talvez por isso, um boa experiência de mediação seja aquela que possibilita além da educação do olhar, a educação também da escuta.
Voltando ao texto de Galeano, desde que o li pela primeira vez, chamou-me a atenção o fato de que o garoto pede ao adulto que o ajude a olhar e não que olhe por ele. Talvez seja esse o convite feito pelos bons livros infantis aos leitores de todas as idades: que possamos juntos nos ajudar a ver. Quanto maior nossa capacidade de olhar e vontade de compartilhar verdadeiramente nossas visões, tanto maior será a nossa capacidade de leitura – não só das páginas, mas também da vida e do mundo.

Livros podem ajudar crianças a entenderem e enfrentarem perdas

Falar sobre perdas pode ser difícil para pessoas de qualquer idade -- e elas são uma realidade de que não podemos fugir: a morte de uma pessoa próxima ou a separação de alguém que amamos.

A situação pode ser mais delicada se tais pensamentos estiverem ocupando as mentes de crianças. Como podemos abordar esses assuntos? Aliás, devemos falar sobre isso com os pequenos?

"Tudo isso [a morte, as separações] faz parte da vida. Existe uma ilusão em poupar as crianças de assuntos difíceis, como se eles deixassem de existir ao ignorá-los", explica a psicanalista Maria Cristina Mantovanini, 55. 

Uma estratégia é usar as histórias dos livros infantis para trazer a temática, porque as histórias proporcionam um distanciamento saudável, segundo Mantovanini.

Segundo a especialista, a partir de 7 anos, conforme a fantasia não é mais suficiente para todas as respostas, as crianças começam a entrar em crises existenciais e fazer questionamentos de muita angústia.

"Os assuntos vão chegar, independente de o adulto intermediar", diz Maria Cristina. Os livros são indicados para todas as idades, até para as crianças mais velhas. "A arte, seja a música ou a escrita, pode ser reconfortante. A escrita é um pensamento mais elaborado. Em terapia, nós usamos histórias como exemplos para a vida até para os adultos, a exemplo dos contos de fada."

"A literatura é um pulmão, onde a gente consegue respirar melhor e compreender no terreno simbólico o que não é fácil de ser digerido", explica Márcia Leite, 55, diretora da Editora Pulo do Gato, que investe em assuntos dessa natureza em seu catálogo infantil. "A gente tenta mostrar que o livro é uma espécie de ensaio de vida. Não estamos vivendo aquilo, mas a obra nos convida a chegar perto do tema", completa.

Veja uma lista com sugestões de livros:

O Amor Pega Feito Bocejo (Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, Companhia das Letras): Escrito em verso, o livro conta a história de um garoto que tem uma tia com Alzheimer. Ela vive na casa dele e um dia desaparece.


Cadê Meu Avô (Lídia Carvalho, Editora Biruta): Renato está muito triste, pois perdeu um avô muito querido, que gostava de contar histórias. No Natal, ele decide pedir ajuda ao Papai Noel para encontrar o velho amigo.

Chakchuca Desapareceu (Galia Oz, Companhia das Letras): Chakchuca é uma cachorrinha. Ela desaparece e deixa sua dona muito aflita, iniciando uma aventura para desvendar o mistério do sumiço do animal de estimação.

Começo, Meio e Fim (Frei Betto, Editora Rocco): A personagem é uma menina tão meiga e doce, que associa todos os membros da família às guloseimas que gosta de devorar. Quando descobre a morte, percebe que a vida também tem seu lado amargo. A descoberta é suavizada pela amorosa lição de vida dada por seu avô. 

A Cruzada das Crianças (Bertolt Brecht, Pulo do Gato): O poema narrativo conta a história da árdua peregrinação de um grupo de crianças órfãs que foge dos horrores provocados pela Segunda Guerra Mundial. Juntas, elas buscam refúgio e lutam contra a fome, o frio, a miséria e o desamparo.

O Domingo Trocado (Ruth Löbner, Brinque Book): Filho de pais separados, Jonas passa a semana com Ana, sua mãe. Os finais de semana ficam por conta do pai, Pedro, que é muito atrapalhado. Certo domingo, Jonas decide trocar de papel com o pai, realizando todas as tarefas. Tudo funciona perfeitamente até irem ao parque tomar sorvete e viverem algo inesperado.

Eu Vi Mamãe Nascer (Luiz Fernando Emediato, Geração Editorial): Uma criança de oito anos narra suas reações diante da morte da mãe. O livro busca conforto não apenas ao falar da morte, mas também ao tentar responder qual é o sentido da vida. 

Eloísa e os bichos (Jairo Buitrago, Pulo do Gato): Uma menina muda com o pai para uma nova cidade e enfrenta um mundo totalmente diferente do que conhecia, no qual se sente um verdadeiro bicho estranho.


Greve de Vida (Amélie Couture, Companhia das Letras): Uma garota perdeu a mãe durante o seu nascimento e foi criada pela avó. Tudo muda quando essa avó morre e a menina passa a viver com o pai, a nova esposa e o filho deles. Revoltada com as mudanças, a personagem decide fazer uma greve de vida e ficar trancada no quarto, sem fazer nada e nem falar com ninguém.

A História de uma Folha (Leo Buscaglia, Record): Como sugere o título, o livro conta a história de uma folha, ilustrando o equilíbrio entre a vida e a morte. Mostra-se como essa folha e suas companheiras mudam com a passagem das estações, caindo finalmente ao solo com a neve do inverno.

Íris - Uma Despedida (Gudrun Mebs, Pulo do Gato): A família de Íris descobre que ela está gravemente doente e precisa ser hospitalizada. A irmã mais nova narra os sentimentos que a afligem, como medo, a esperança e a tristeza.

Lá e Aqui (Carolina Moreyra e Odilon Moraes, Pequena Zahar): uma criança fala sobre a separação dos pais e mostra como a situação pode ser vivida de maneira positiva, sem menosprezar o sofrimento.


Malala – a menina que queria ir para a escola (Adriana Carranca, Companhia das Letras): A adolescente paquistanesa Malala Yousafzai foi baleada por membros do Talibã aos catorze anos por defender a educação feminina. O livro conta a história, as perdas e os ganhos da menina que se tornou Prêmio Nobel da Paz.

O Medo da Sementinha (Rubem Alves, Paulus Editora): Durante o seu desenvolvimento, uma semente passa por medos e preocupações. A mãe dela acompanha esses sentimentos e a conforta.

Menina Nina - Duas Razões Para Não Chorar (Ziraldo, Melhoramentos): Ao falar dos sentimentos de uma criança que perde a avó, o autor aborda os mistérios da vida e da morte, falando de dor e esperança.

O Menino e o Vento (Regina Machado, Companhia das Letras): Desobedecendo o pai, um menino se lança ao mar para pescar sozinho e embarca em uma longa viagem. Ele se divertiu muito, até se dar conta que estava perdido dos pais.

Meu Filho Pato (Vários autores, Companhia das Letras): Idealizado pelo escritor Ilan Brenman com a equipe de psicólogas do Instituto 4 Estações, especializadas em lidar com situações de perda, o livro reúne seis histórias sobre o assunto, escritas por seis escritores diferentes. Há contos cômicos, tristes, poesia e até cordel, além de textos de apoio para tratar o tema com as crianças.

A Montanha Encantada dos Gansos Selvagens (Rubem Alves, Paulus Editora): O nascimento do gansinho Cheio-de-Jasmim alegrou a vida dos gansos selvagens, que enfrentavam o frio e o calor, os caçadores e a fome. O pequeno animal adorava ouvir histórias. Uma delas falava sobre a Montanha Mágica, para onde iam os gansos mais velhos...

A Mulher que Matou os Peixes (Clarice Lispector, Editora Rocco): A personagem se esquece de alimentar os peixinhos de seu filho. Ela pede perdão aos leitores e procura explicar como tudo aconteceu.

A Operação de Lili (Rubem Alves, Paulus Editora): A elefantinha Lili precisa fazer uma operação para retirar Gregório de sua tromba. O amigo sapo foi parar lá após uma brincadeira. Com muito medo da cirurgia, Lili contou com a ajuda da Fada da Floresta.

Os Porquês do Coração (Nye Ribeiro e Conceil C. Silva, Editora do Brasil): Mabel é uma menina curiosa e vive fazendo perguntas, na tentativa de entender o mundo. Ela ganha um peixinho de aniversário e com ele vai descobrir o sentido da amizade, do amor e da perda.

A Preciosa Pergunta da Pata (Leen van den Berg, Brinque Book): Uma pata perdeu seu patinho e está muito triste. Surge a pergunta: Para onde vamos quando morremos?

O Reino Partido ao Meio (Rosa Amanda Strausz, Companhia das Letras): O reino de um príncipe é partido ao meio por um dragão furioso. A partir de então, ele precisa aprender a viver com tudo quebrado na metade, até seus pais.

Roupa de Brincar (Eliandro Rocha, Pulo do Gato): A maior diversão de uma menina é brincar no guarda-roupa da tia. Até que um dia a garota vai visitá-la e percebe que ela está muito triste. Quando entra no guarda-roupa, nota que até as cores haviam sumido. Tudo isso porque alguém querido morreu.

Tempos de Vida (Brian Mellonie, Editora Global): A obra trata a morte como parte do ciclo natural, falando sobre o nascimento, crescimento, maturidade e o fim. Mostra que isso acontece com todos os seres vivos, dos insetos aos seres humanos.

Um Outro País para Azzi (Sarah Garland, Pulo do Gato): Azzi é um menino refugiado. Após fugir às pressas com seus pais, embarca em um país desconhecido, com pouca bagagem e a esperança de uma vida mais segura. Agora o menino terá de enfrentar a saudade que sente da avó e muitos desafios.

O Violinista (Colin Thompson, Brinque Book): Oscar toca seu violino na calçada de um teatro, entretendo as pessoas que aguardam na fila para comprar ingressos. Envolvido em sua própria música, ele sonha em ser um grande músico e ter ao seu lado a filha Marieta, que já se foi.

Vó Nana (Margaret Wild, Brinque Book): Vó Nana e Neta moram juntas e compartilham tudo, inclusive as tarefas da casa. Certo dia, elas precisam se despedir da melhor maneira que conhecem.

Vô, Eu Sei Domar Abelhas (Monika Feth, Brinque Book): Diego é muito apegado ao avô, que morre de repente. Mas as explicações para a morte não convencem o menino.

Vovô Foi Viajar (Mauricio Veneza, Compor Editora): O sumiço do avô intriga a neta, mas os pais dela não conseguem responder suas perguntas.


Sucesso na internet, blogueiro tem livro adotado por escola em Goiás


O jovem Rafael Magalhães, de 29 anos, autor de um blog de crônicas e de dois livros que reúnem os textos publicados na internet, teve uma de suas obras adotadas por uma escola de Goiânia. Formado em educação física, Rafael abandonou a profissão para dedicar-se exclusivamente ao livro, ao blog e à sua página no Instagram, que reúne quase 1 milhão de seguidores. Ele conversou com o G1 sobre o trabalho (veja o vídeo neste link).


Segundo o blogueiro, escrever sempre foi um hobby, e ele diz que se sente orgulhoso em poder viver do que antes era um passatempo. “Estou vivendo um sonho, através das palavras que começaram de forma inocente e despretensiosa, virei um escritor e estou curtindo muito este momento”, afirmou o blogueiro.

Rafael é autor do blog Precisava Escrever, que reúne textos sobre encontros e desencontros de amor, amizade, perdas e situações do cotidiano. Ele afirma que quando criou o site, em 2010, não tinha a intenção de tornar os registros públicos. “Eu escrevia para mim, como um diário para vencer a timidez e colocar no papel aquilo que eu estava sentindo, minhas percepções sobre fatos que aconteceram na minha vida”, contou.

O jovem escritor conta que sempre fugiu do que era tradicional. Quando passou no vestibular, foi aprovado em direito e em educação física, mas escolheu a segunda opção.

Rafael afirma ainda que sempre teve o apoio dos pais, mas que houve surpresa quando ele comunicou que ia se dedicar ao trabalho do blog.

“Meu irmão é médico. Eu já tinha trocado direito em uma universidade federal por um curso menos tradicional. Eles se surpreenderam, mas me apoiaram. Hoje, eu e eles integramos a ‘equipe Precisava Escrever’", brincou.

Rafael não sabe dizer exatamente quando o blog bombou na web, mas conta que ocrescimento foi gradual. Apesar disso, ele destaca um texto em especial, escrito em homenagem ao cantor Cristiano Araújo e sua namorada, Allana Moraes, mortos em um acidente de carro em junho de 2015. Segundo ele, após a publicação do texto, ele quase dobrou o número de seguidores nas redes sociais.

“Foi legal, porque até então, apesar de ter muitos leitores, não tinha um texto que tivesse dado tanta repercussão”, considerou Rafael.

A crônica ao sertanejo foi escrita em primeira pessoa, como se Deus estivesse conversando com Araújo. “Vocês dois voarão daquele carro direto para os meus braços. Não sentirão dor, mas causarão. Uma nação inteira ficará em luto. Mas, sabe de uma coisa, meu filho. Pode parecer estranho, mas, às vezes, as pessoas precisam morrer para se tornarem imortais. Será assim com você. Sua passagem será curta, mas deixará marcas que não se apagarão jamais”, diz um trecho do texto.

Após o sucesso, seguidores começaram pedir que Rafael publicasse um livro que reunisse os textos da internet. “Eles pediam para ter tudo aquilo que viam nas telas dos computadores e celulares, no papel. Daí a ideia da série de livros”, disse. Rafael publicou o segundo livro da série Precisava Escrever em dezembro do ano passado. Sem editora, o livro é comercializado no próprio blog e todo trabalho de divulgação é feito pelo autor.

Os dois primeiros livros foram uma coletânea dos textos já publicados por Rafael no site e nas redes sociais com alguns inéditos feitos exclusivamente para a versão impressa. Agora ele diz que está escrevendo um romance, uma história diferente dos formatos já feitos por ele. "Eu estou ansioso, é um trabalho paralelo ao que todos já conhecem do blog, acho que vai ser legal", comenta.

Livro

Com a repercussão dos livros de Rafael, a coordenação de língua portuguesa do Colégio Externato São José resolveu adotar a primeira obra como livro literário obrigatório do 9º ano do ensino fundamental.

“É legal porque é uma leitura próxima da realidade dos meninos e está sendo um sucesso, alunos que nem eram obrigados a ler, de séries mais novas, pediram para comprar e ler o Precisava Escrever”, afirmou a diretora pedagógica Darlei Dário Padilha.

O G1 levou o autor do livro para encontrar com os alunos leitores e seguidores dele na internet. Durante o encontro, eles compartilharam seus textos favoritos e fizeram comentários sobre a obra de Rafael Magalhães. Um dos preferidos entre os estudantes, o texto “Guarde estas lágrimas”, presente no primeiro livro do blogueiro, foi lido em conjunto pela turma.

A estudante Maria Fernanda Lustosa, 13 anos, disse que gosta dos textos de Rafael porque eles são de fácil identificação. Além disso, ela diz que, apesar de se tratarem de questões cotidianas, provocam grandes reflexões. “Eu leio e penso, gente, como eu sofro por coisa que não é relevante, que é dispensável. A gente tem que parar, de fato, com os ‘mimimis’(sic) ”, afirmou a adolescente.

Segundo a professora de literatura, todos que leram se identificaram de alguma forma. Bárbara Manzi, estudante do 9º ano, disse que se emocionou ao ler um texto que fala sobre perdas. “As vezes o que a gente precisa é de ler histórias que a gente se identifique e pensar, ‘poxa, esse sentimento não é só meu’, a gente vive isso junto”, afirmou Bárbara.

Com o sucesso que foi a leitura do livro, a diretoria pedagógica já estuda ampliar a abrangência da aplicação da leitura para novas séries.

O escritor destaca que se sente bem com o reconhecimento do seu trabalho. “Eu acho legal isso, o que me motivava a escrever os textos quando criei o blog era exatamente buscar identificação, que é o que os meninos sentem quando leem os textos, seja no livro, no blog ou nas redes sociais”, afirmou Rafael.

Fonte: http://bit.ly/1Rz4efC